Impacto do Tema 1.377 do STJ no Agronegócio em 2026

Entenda como o tema 1.377 do STJ sobre crimes de poluição afeta o agronegócio, o crédito rural e a segurança jurídica do produtor em 2026. Saiba mais sobre as implicações legais.

2/4/20267 min read

Risco Criminal e Crédito Rural 2026: Guia sobre o Tema 1.377 STJ

Nos últimos dias, o cenário para o produtor rural brasileiro tornou-se significativamente mais complexo. Com a publicação das novas diretrizes de fiscalização do IBAMA para o primeiro trimestre de 2026 e a integração total dos sistemas de monitoramento por satélite aos cadastros de crédito bancário, a conformidade ambiental deixou de ser uma opção ética para se tornar uma condição de sobrevivência financeira. O estopim dessa nova era é a consolidação do Tema 1.377 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que altera profundamente como o crime de poluição é julgado e, consequentemente, como sua fazenda é vista pelo mercado financeiro.

Se você acredita que a ausência de um dano visível ou a falta de uma perícia técnica no momento da fiscalização são garantias de absolvição, este artigo é um alerta urgente. O Judiciário brasileiro acaba de remover o "escudo" da prova pericial obrigatória, e as consequências para quem não possui um compliance robusto são imediatas: do processo criminal ao bloqueio total de linhas de financiamento no Manual de Crédito Rural (MCR 2.9).

Abaixo, traduzimos essa mudança técnica em estratégia pura para a proteção do seu patrimônio e da continuidade da sua operação.

O Novo Padrão de Culpa: A Natureza Formal do Crime de Poluição

Até pouco tempo, havia uma disputa nos tribunais: para condenar um produtor por poluição (Art. 54 da Lei 9.605/98), era necessário provar que a saúde de alguém foi efetivamente prejudicada ou que houve mortandade real de animais? O STJ colocou um ponto final nessa dúvida com o Tema 1.377.

Agora, o entendimento é de que o crime de poluição é formal e de perigo abstrato. Isso significa que a simples conduta de colocar o meio ambiente em risco — mesmo que o dano final não ocorra — já é suficiente para gerar uma condenação criminal. O foco mudou do "resultado" para a "potencialidade".

Para que você compreenda a gravidade técnica, observe o que diz o dispositivo central da Lei de Crimes Ambientais:

Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.

O Comentário do Especialista: Note o termo "possam resultar". Ao interpretar esse trecho, o STJ decidiu que o Ministério Público não precisa mais esperar a contaminação do lençol freático para agir. Se o fiscal encontrar defensivos agrícolas armazenados de forma irregular, próximos a um curso d'água, a "potencialidade" está configurada. A condenação agora pode vir sem que uma única gota de produto tenha tocado o solo, baseando-se apenas no descumprimento de normas técnicas regulamentares.

A Queda da Perícia Obrigatória e o Risco da "Prova Idônea"

A maior mudança prática trazida pelo Tema 1.377 é a dispensa da perícia oficial. Antes, a defesa costumava derrubar processos alegando que, sem um laudo assinado por perito do juízo, não havia materialidade. Esse tempo acabou. O STJ determinou que a materialidade pode ser provada por qualquer meio idôneo.

Em 2026, isso significa que:

  1. Imagens de Satélite em Tempo Real: O cruzamento de dados do MapBiomas e do sistema Planet pode ser usado para provar alteração na coloração de rios ou queima de resíduos.

  2. Laudos Administrativos do Órgão Ambiental: O documento lavrado pelo fiscal do IBAMA ou da Secretaria Estadual ganha força de "verdade quase absoluta" no processo criminal, se não for impugnado tecnicamente por sua defesa.

  3. Relatórios de Inteligência Territorial: Dados de sensores de solo integrados a sistemas de gestão podem ser requisitados judicialmente para comprovar o uso inadequado de insumos.

Estudo de Caso Real: A "Fazenda Modelo" e o Vazamento de Fertilizantes

Imagine a situação do Sr. João, um produtor de soja de médio porte. Durante uma chuva atípica em janeiro de 2026, parte do seu depósito de fertilizantes — que estava com a manutenção do telhado pendente — sofreu infiltração. O líquido escorreu para uma vala de drenagem que levava a um pequeno córrego nos fundos da propriedade.

O fiscal ambiental chegou dois dias depois. O córrego parecia normal, não havia peixes mortos e a água estava limpa visualmente. No entanto, o fiscal fotografou as marcas de escoamento no depósito e coletou uma amostra de solo saturada de nitrogênio na saída da vala.

O Desfecho sob o Tema 1.377: Sob o entendimento antigo, o Sr. João teria boas chances de defesa pela falta de prova de dano à saúde humana. Hoje, ele foi denunciado criminalmente. O Ministério Público alegou que o risco ao ecossistema local foi configurado pelo descumprimento das normas de armazenamento. Resultado: Réu em processo criminal e, automaticamente, seu CPF entrou na lista de restrição de risco socioambiental de três bancos privados, impedindo a renovação do custeio para a próxima safra.

A Interconexão Letal: Processo Criminal e o Manual de Crédito Rural (MCR 2.9)

O perigo do Tema 1.377 não se limita à liberdade do produtor. No agronegócio moderno de 2026, o maior risco é o financeiro. O novo Manual de Crédito Rural (especificamente a Seção 2.9) exige que os bancos monitorem a regularidade ambiental dos tomadores de crédito de forma contínua.

  • Bloqueio por Inquérito: Muitas instituições financeiras, em suas políticas de compliance ESG, estabelecem que a simples existência de um processo criminal por poluição ambiental é motivo para a suspensão de desembolsos de contratos em vigor.

  • O CAR como Refém: Uma condenação criminal baseada no Art. 54 gera, quase invariavelmente, um embargo administrativo. Uma área embargada invalida a porção correspondente no CAR, tornando o imóvel rural juridicamente "inexistente" para fins de garantia bancária.

Destaques Estratégicos para a Gestão 2026:

  • O crime de poluição agora é "de perigo": não precisa haver dano real para haver condenação e bloqueio de bens.

  • A perícia técnica oficial não é mais obrigatória; fotos, vídeos de drones e laudos de fiscais agora servem como prova plena.

  • A condenação criminal impacta diretamente o rating ESG da fazenda, encarecendo ou bloqueando o crédito rural.

  • A regularização preventiva de depósitos e resíduos é o seguro mais barato contra a paralisação da sua atividade.

Gestão de Objeções: Mitos e Verdades sobre o Risco Ambiental

  • Mito 01: "Se eu tiver uma Holding Rural, meu patrimônio está protegido contra multas e crimes ambientais." Verdade: Cuidado. A Lei de Crimes Ambientais (Art. 2º e 3º) permite a desconsideração da personalidade jurídica sempre que a empresa for obstáculo ao ressarcimento de danos. Além disso, o Tema 1.377 foca na conduta de quem decide. Se você, como sócio-administrador da Holding, negligenciou a manutenção do depósito, responderá criminalmente no seu CPF, e as cotas da sua Holding podem ser penhoradas para pagar a reparação civil.

  • Mito 02: "Minha fazenda é pequena, o fiscal não vem aqui." Verdade: Em 2026, a fiscalização é remota. O cruzamento de dados de satélite com o cadastro de notas fiscais de defensivos aponta automaticamente onde há risco de poluição. O fiscal só vai à terra para lavrar o auto que o STJ agora aceita como prova principal.

  • Mito 03: "Eu tenho licença ambiental, então estou seguro contra o crime de poluição." Verdade: A licença é uma autorização para operar dentro de limites. Se você opera fora dos parâmetros da licença (ex: despeja efluentes acima da concentração permitida), a licença torna-se irrelevante para o Direito Penal e serve até como prova de que você conhecia as regras e decidiu ignorá-las.

Guia Prático de Implementação: O Checklist do Compliance Agro 2026

Para mitigar os efeitos do rigor do STJ, o produtor deve adotar o seguinte passo a passo imediato:

  1. Auditoria de Passivos de Armazenagem: Verifique telhados, bacias de contenção e sistemas de drenagem de depósitos de químicos e fertilizantes. Documente a manutenção com fotos datadas.

  2. Contratação de Perícia Preventiva: Não espere o fiscal. Tenha laudos semestrais de qualidade de água e solo feitos por empresas privadas. Em caso de acusação, você terá uma "contraprova idônea" para enfrentar o laudo do órgão ambiental.

  3. Treinamento de Equipe com Registro: Formalize que seus funcionários receberam treinamento sobre o descarte de embalagens e manejo de resíduos. Se um erro ocorrer, a responsabilidade criminal pode ser individualizada, protegendo o proprietário da acusação de "omissão".

  4. Cláusula Ambiental em Contratos de Arrendamento: Se você arrenda sua terra, certifique-se de que o contrato prevê responsabilidade integral do arrendatário por poluição, com previsão de rescisão imediata e auditoria periódica.

Dúvidas Comuns (FAQ)

1. Posso ser preso por uma poluição causada por um funcionário sem meu conhecimento? No Direito Penal, a responsabilidade é subjetiva. No entanto, o Ministério Público costuma denunciar o dono da terra por "omissão imprópria", alegando que você tinha o dever de vigilância. Um sistema de compliance registrado é sua única defesa para provar que você não foi omisso.

2. Quanto tempo dura a responsabilidade por um dano ambiental? Conforme o STF (Tema 1.194), a reparação civil do dano ambiental é imprescritível. Você ou seus herdeiros podem ser cobrados daqui a 30 anos por uma poluição ocorrida hoje. Já a pena criminal prescreve, mas os efeitos secundários (bloqueio de crédito e embargos) podem durar décadas.

3. O banco pode cancelar meu financiamento se eu for apenas investigado, sem condenação? Sim. As cláusulas de "Vencimento Antecipado" nos contratos de crédito rural modernos vinculam o desembolso à manutenção da regularidade ambiental. A simples denúncia criminal altera o perfil de risco do cliente, permitindo ao banco suspender novas liberações.

Visão de Futuro e o Risco de não Agir

O julgamento do Tema 1.377 pelo STJ não é apenas uma tecnicidade jurídica; é um recado claro de que a impunidade ambiental no campo acabou. O Estado agora possui as ferramentas tecnológicas para vigiar e a autorização judicial para condenar sem burocracia pericial.

Ignorar essa realidade é aceitar o risco de ver sua operação parar. O produtor que não investe em conformidade hoje, gastará o triplo em advogados amanhã para tentar desbloquear um CAR ou uma conta bancária. A proteção da sua terra começa na prevenção da sua conduta.

Resumo Estratégico para o Produtor

O STJ decidiu (Tema 1.377) que o crime de poluição é formal (basta o risco, não precisa do dano) e dispensa perícia obrigatória. Isso facilita condenações criminais através de laudos administrativos e satélite. O principal impacto imediato é o bloqueio de crédito rural via MCR 2.9 e a contaminação do rating ESG da propriedade. A solução é a implementação de compliance preventivo e auditorias de solo e água como contraprova.

Rômulo Ornelas Advogado | OAB/DF n° 85.921🌐 www.romuloornelas.com | 📞 (61) 99138-3772